CAPITAL DO SERTÃO

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6.7.09

A Origem do Povoado “Boca da Mata”

 Jorge Henrique

 Segundo o historiador sergipano Carvalho de Lima Júnior, em seu livro História dos Limites entre Sergipe e Bahia, as terras em que se erigiu o município de Nossa Senhora da Glória teriam pertencido, no início do século XVII, a Tomé da Rocha Malheiros. Uma sesmaria de 10 léguas, a partir da Serra Tabanga, estendendo-se para o sertão, ter-se-ia tornado posse desse beneficiário. O pesquisador sergipano afirma ainda que “a penetração nesta região se verificou no ciclo da economia pastoril, com a instituição de currais de gado, entre 1600 e 1625”.

Esta foi a informação veiculada pelas pesquisas anteriores sobre as origem do Povoado Boca da Mata (atual Nossa Senhora da Glória) e até então tida como incontestável e absoluta. Há alguns anos, contudo, o Prof. José Carlos de Sousa verificou em seus estudos que tal assertiva pode ter incorrido em equívoco e lançou uma polêmica sobre a questão. Em sua pesquisa, SOUSA[1] constatou que “dados mais positivos sobre o primeiro aglomerado humano, que deu início ao Povoado de Boca da Mata, não foram localizados”.

De acordo com este conterrâneo, “a região de Boca da Mata jamais poderia ter sido colonizada antes da de Gararu (à época, Curral de Pedras)”, pois esta última foi ocupada por colonos portugueses vindos de Porto da Folha, que, apavorados pelo domínio holandês em Sergipe, iniciado em 1637, se refugiaram na Serra Tabanga, conforme consta na Enciclopédia dos Municípios Brasileiros (p. 310).

Além disso, argumenta o professor, um fato digno de nota é o de que a Igreja Católica, sempre presente nos movimentos dos colonizadores do Brasil, celebrou a primeira missa na povoação que então se formava somente na última década do século XIX. Algo que corrobora sua afirmação. Acrescente-se ainda, segundo o historiador sergipano Felisberto Freire, que a pecuária impulsionou os tangedores de gado em direção às terras do sertão, especialmente no inverno, quando as pastagens eram ricas e abundantes.

É forçoso deduzir então que a ocupação dessa região não foi em decorrência da fuga de colonos portugueses ao domínio holandês, e sim, motivada pela vinda desses tangedores de gado, a partir do século XVIII, e o Povoado Boca da Mata teve início no último quartel do século XIX, haja vista ainda depoimentos colhidos pelo Professor SOUSA de João de Sousa e Honório do Mandacaru, primitivos habitantes da região de Boca da Mata, nascidos respectivamente em 1865 e 1868.

À medida que a economia pastoril se desenvolvia pelo sertão sergipano, através da instalação de currais de gado, o conseqüente processo de ocupação espacial e modificação do meio para a instalação de futuras comunidades, pouco a pouco, foi devastando a mata de vegetação muito alta e densa, que cobria o solo daquela região. Entretanto, por ser rota obrigatória para aqueles que vinham de outras regiões, antes de surgirem as primeiras povoações, o local serviu de ponto de descanso onde pernoitavam os viajantes que se dirigiam à Cotinguiba interessados na compra de açúcar e jabá.

A primeira denominação da região (Boca da Mata), segundo relatos dos primitivos habitantes, deu-se por conta daqueles viajantes, pois tinham medo de seguir suas rotas durante a noite e ali, na entrada da mata, dormiam. Surgiu então uma expressão que se tornou comum entre eles: “dormir na boca da mata”. Daí a origem da toponímia. Conforme relatos, mesmo depois de elevada à condição de 2º Distrito de Paz de Gararu, em 1922, sob a denominação de Nossa Senhora da Glória, os habitantes mais idosos ainda a chamavam de Boca da Mata.

Os ranchos que ali se fizeram por conta dessas estadas dos tropeiros, durante as viagens, originaram o primeiro núcleo habitacional. O surgimento do povoado foi se dando, paulatinamente, entre terras, onde se começou uma modesta atividade pecuária, e sítios, onde se começavam a plantar mandioca, milho, feijão e algodão.

[1] Enciclopédia dos Municípios Brasileiros (p. 382) apud SOUSA, J. C. de. Discurso do Homenageado. Discurso proferido na sessão solene da Câmara Municipal de Nossa Senhora da Glória, em 30 de setembro de 2005, por ocasião da entrega da Medalha do Mérito Legislativo ao Dr. José Carlos de Sousa.

criado por poetajorge    21:40 — Arquivado em: CULTURA — Tags:,

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